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O eu da geração perdida.
Nada passou e tudo mudou, eles não estão mais presentes, elas agora se preocupam com as medidas do corpo e a idade no RG. O passado fica imóvel como um presente indesejado exposto na estante, são risadas que temperam as historias chatas para alegrar o tédio das noites de sábado em que fotografamos a alegria de uma pizza. Eu? Deserto, escorrendo pelas areias com as mãos de Dali, desenhando o suicídio de Hemingway com as loucuras de Picasso não faço parte de nenhuma Geração Perdida. Sou só mais um abarrotado nos vagões, carregando a herança que mais parece com a sede de um vampiro, tombando os calendários, registrando diariamente minha função no mundo moderno, abrindo um caderno escrito pela rotina, pelas contas e pela vitória da morte, rindo nos cantos do quintal para sonhos que vagam no frio da madrugada tentando ir além das frestas do portão fechado. Carregando a imaginação na ponta dos dedos, testando a insanidade em cada bom dia que sai arrastado da garganta, criando assassinatos na mente, enquanto as crianças famintas vão amarrando os cadáveres um a um através de suas gravatas, os cachorros latindo em fúria, cheirando as saias ensanguentadas que se arrastam pelas lojas enquanto procuram algo para “ comer “. Tudo passou e tudo mudou, eles ausentes agora sentados no sofá brincam de família e escondem a decepção em cada hora extra que enterra os sorrisos que hoje já não são vistos mais, elas agora se misturam com a paisagem, queimando nos meus olhos como o carvão que queima a mãe de deus, servida para aqueles que só tiveram uma opção, devorar sua própria esperança. Eu? Deserto escorrendo, louco, sentado, ensanguentado, devorando e devorado.
Escrito por FerdNan Raesmo às 02h58
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Felicidade cega
Quando sinto você me imagino entre as imagens e cego minhas revoltas. Passo o tempo e não penso, não me inspira e não me perturbo. Rejeito os argumentos e banho meu corpo na luz dos dias que nunca vejo nascer. Percebo os carros, dou importância para as roupas, as cores, os valores, o dinheiro na conta do banco. Você cala meus conflitos, absorvendo meu olhar escuro e sem esperança. Não respondo e só concordo, aprovo o outro com a indiferença do politicamente correto. A Insatisfação movimenta a vida e a felicidade nos anestesia. Carneirinhos andando mudos para o abatedouro mundo.
Escrito por FerdNan Raesmo às 23h44
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Sexta-Feira-Treze.
Os cachorros dormem ao relento, os sonhos dormem ao relento e o passado dorme ao relento. Mas o passado retém o futuro nas teias de um respeito esquecido, enquanto as gotas atrasadas caem para que os jovens continuem sorrindo. Nunca é tarde quando o futuro tem um fim pré-determinado, nunca é cedo quando o futuro inexistente brilha como a luz de uma estrela que já se foi. Tardiamente como alguém que inspira saudade, como o amor que nunca se sonhou, imediato como a necessidade de quem não espera, roga-se, se reza e se pede mais alguns minutos de vida para que os erros sejam esquecidos, como corpos que descem a terra aos prantos e sempre são lembrados em meio a musica e sorrisos. Tardio, um desejo surge isolado pela saudade, constante como a respiração de quem vive sonhando com a felicidade marcada no calendário. Se foi o tempo e a carona, a chuva expulsa todo mundo da rua, os olhos caem diante do cansaço ou da fumaça, suavemente o corpo se contrai sentindo a inércia da solidão da noite e da vontade esquecida em você. Nunca mais é muito tempo enquanto tudo se acaba e o amor procura relembrar suas palavras, breve instante que nós nos amamos. As sombras e os sonhos, só existem na noite ou quando os olhos se fecham, na ausência total da luz e na distância tardia do eu e você.
Escrito por FerdNan Raesmo às 03h02
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A Parede.
A notoriedade da musica se perde no barulho dos saltos que tropeçam sob a sobriedade, e essa rebeldia pomposa, uma espécie de revolta organizada só serve para figurar os quadros virtuais com fotos de uma felicidade cronometrada. A festa termina no meio da noite, enquanto a maquiagem não manchou os sorrisos e os cabelos ainda estão bem penteados. Só os mendigos dormem, depois de terem fumado as bitucas que caem no chão e bebido o resto das latas espalhadas pela calçada. Há uma frustração na energia contida nos passos limitados pela rentabilidade das mesas, enquanto um estranho me fala, “vamu toca o putero nessa porra”. Resta-nos esconder a revolta na mente e tornar a volta uma extensão do que acabou de maneira muito breve, recordando com coisas que alimentam o cérebro e tornando os dias escuros para viver somente na noite. “Salve nossa cidade, salve nossa cidade Agora mesmo. Bem, eu acordei essa manhã e tomei uma cerveja. O futuro é incerto e o fim está sempre perto Deixe rolar, baby, rolar. Deixe rolar a noite inteira “(*) (*) The Doors – Roadhouse Blues
Escrito por FerdNan Raesmo às 01h39
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Esperança.
Eu sei que é tarde e as sombras radioativas dançam valsa nas ruas vazias. A energia cospe fogo como um dragão que queima a natureza produzindo fluorescência com a morte do mundo. As crianças assustadas sonham em silêncio, reduzindo o futuro ao sorriso inocente de quem desconhece a maldade do amanhã. Todos de braços dados com o nada, sociabilizando com as horas marcadas os dias que restam, retrucando um bom dia e desconfiados do espelho. As experiências foram enterradas debaixo das camas, como um feitiço que rende ganhos na velhice de nossos corpos, pedindo ajuda para os fundos de pensão que se tornam os deuses que amaciam os caixões guardados para as vidas vazias. O assassino sopra em nossos ouvidos a revolta silenciosa e choramos discretamente tentando evitar que as lágrimas não desfaçam nossas mascaras, tentando confundir a verdade, tentando manter sobre nossos olhos algo disforme que brilha do lado da tristeza enquanto andamos cambaleante de braços dados com a felicidade. Eu sei que é tarde e todas as luzes se apagam.
Escrito por FerdNan Raesmo às 02h10
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