Depois que a chuva molhou a mesa do bar.
Depois do caos imediato das coisas espalhadas pelo chão, das roupas tiradas com pressa, das garrafas esvaziadas pela sede, dos cinzeiros repletos de vida, dos livros folheados pela curiosidade, tudo ficou lá estendido, esquecido, levado pelo momento, pela velocidade de uma vontade que agora é pretérita. Agora já é outro dia e tudo está em ordem agora. Cada coisa no seu lugar, todos os livros fechados na estante presos na incapacidade de compreensão de suas paginas escuras, os sapatos organizados um atrás do outro como um exercito marchando para morte, as roupas penduradas no armário como gado preso nos ganchos de um matadouro, agonizando por um evento que as faça sentir as luzes e observar sorrisos, e as garrafas vazias e tampadas estão cheias de sonhos adormecidos que acordam doloridos e com sede. O quarto está organizado agora enquanto um tumúlto em forma de pensamentos invade as ruas da cidade de pedra deixando tudo anarquicamente decorado com a desordem da incerteza, tudo de uma maneira singularmente despretensiosa em relação a ordem, tudo que jamais ficará parecido com o quarto organizado. Ainda tenho cigarros e o ultimo copo de vinho.
Escrito por FerdNan Raesmo às 01h59
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Como nasce um delírio.
Um delírio nasce das vidas cansadas que se espremem em algum transporte publico para chegar logo em casa. Nasce do rosto mais ingênuo que é flagrado na rua mais escura do consumo. Nasce do ódio em relação à luz que vai invadindo a vida sem pedir permissão.•. Um delírio nasce das lembranças que tentam ser esquecidas ou de alegrias que são inventadas de uma noite que só existe por causa do cartão de credito.
Um delírio é uma lagrima que escorre através da alma, manchando a existência com algum momento de infelicidade.
Um delírio traz a beleza para a decadência da moral, ele revela o escondido através daquilo que jamais alguém poderia imaginar.
Um delírio nasce da falta de esperança, das contas mais altas que o salário, do saldo negativo no banco que devora todo o credito, das esperas intermináveis em pontos de ônibus que carregam o corpo quase inerte.
Não há felicidade no delírio! Só há dor, tristeza, miséria, desesperança e um jogo de palavras envolvente, e quanto mais envolve, mais se esquece das lagrimas que ninguém vê, quando nasce um delírio.
Escrito por FerdNan Raesmo às 00h28
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Seus sonhos não são seus, são os sonhos que te deram.
Os olhos se perdem nas luzes de uma rua pouco iluminada e ele permanece sozinho dando vida a cada pensamento que surge através dos faróis que pedem atenção. Um regresso triste para a velha casa, rodeado de sorrisos medrosos que vão calmamente morrendo e silenciando o mundo enquanto a noite não chega. Ele sobrevive diante dos homens que caíram de joelhos pedindo para a vida um pouco mais de tempo, silentes e hipnotizados pela mentira digital que corrói suas retinas, com o coração desesperado para realizar os sonhos que lhe deram e não os sonhos que são seus. Toda criação morre com a propagação da luz, o coração vai controlando os pingos de chuva lá fora e o silencio faz as maquinas agonizarem enquanto todas as luzes se apagam.
Escrito por FerdNan Raesmo às 01h08
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Um título para a insônia.
O que eu gosto mesmo é de ficar acordado até o meio da madrugada sonhando com a vida, desfilando vontades para a lua, assassinando pessoas diante do sol e sorrindo para as figuras imaginárias que passam na minha mente durante algum momento de embriaguez. Fico ouvindo as vozes dos que caminham lá fora, somente murmúrios indecifráveis que insisto em tentar decifrar, os carros passam mas não da pra saber em que direção eles vão, as vezes uma sirena quebra a calma da noite e não sei se seguem para salvar uma vida ou para prender mais um garoto pobre. Ouço o próprio silencio tomando conta de todo ar, sufocando os ouvidos como um afogado esquecido no meio no oceano, mudando o sentido de cada pequeno barulho que meu estômago com fome ou queimando por causa de uísque barato faz !!!! Olhando dentro da própria escuridão, o quarto está com as luzes apagadas e mesmo assim ainda consigo desenhar nos pensamentos as sombras de pessoas mortas dançando através dos meus olhos. A agonia aumenta quando a alma entediada até com as visões do inferno não consegue se entregar a pré-morte ou um breve adeus. Segue o noturno povoando as ruas de gente sem casa, uma garoa fina cai molhando o decote das mulheres que buscam amor e o relógio vai contando em passos de aleijado a hora que nunca acaba. O dia daqui a pouco nasce apagando os sonhos, o trabalho faz a preguiça despencar das nuvens que balançam em um céu praticamente intocado. As frestas da janela vão convidando o dia para invadir qualquer canto de sossego e subitamente acordar meu corpo para a realidade que morre em toda lembrança que pretende ser esquecida. Daqui a 24 horas toda a imaginação irá atrás de um lugar confortável para morrer e eu ainda estarei acordado, olhando para o céu enferrujado pela chuva de amanhã e procurando as estrelas.
Escrito por FerdNan Raesmo às 03h19
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A primeira insanidade do ano.
Queria fotografar o momento. Um homem solitário segurando seu copo, com seus pensamentos flutuando pelo ar com a fumaça do cigarro que vai morrendo no contato com a garoa. Aquela solidão surreal onde a luz ilumina apenas o que a visão procura observar! O silêncio da primeira noite. Às vezes um fantasma desce pelas cordas dos sonhos presas nas nuvens cheias de água, ele sorri pra mim quase zombando dos meus pensamentos mais sórdidos e na sequência segue chorando suas lágrimas silenciosas para dentro do quarto de hospede. Tateando o ar tentando capturar as palavras certas para distinguir a felicidade da loucura, inconscientemente se despedindo da luz enquanto a janela se fecha através do movimento involuntário do vento. Sobra uma luz fraca que passa pelas frestas criadas na decomposição do tempo e a vida adormecida agora pode repousar lentamente, sem fogos de artifícios, sem o choro das crianças e cachorros latindo com medo do que possa acontecer. É só o começo de algum fim, em mim.
Escrito por FerdNan Raesmo às 19h01
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